Sinal vermelho para Lucas Ngonda, no Zaire

lucas-ngonda.jpgNo Zaire, tido como o mais importante bastião da FNLA, partido histórico da luta de libertação nacional, os participantes da saga libertadora ainda não digeriram a situação de crise que se arrastou por mais de dez anos e teve fim no Tribunal Constitucional com a atribuição da disputada liderança a Lucas Ngonda.

Palmilhando a cidade em busca da representação deste partido, O PAIS deu com a bandeira do partido, mas na sede estavam os desafectos ao actual presidente, Lucas Ngonda, logo fiéis a Ngola Kabangu.

Contrariando todos os apelos a umas eleições pacíficas e ordeiras, em Agosto próximo, os prosélitos de Ngola Kabangu, herdeiro político do fundador da FNLA, Holden Roberto, deixaram bem vincado, em entrevista a O PAIS, que não tolerarão a presença de Ngonda durante a campanha eleitoral, na província do Zaire.

“Para nós, militantes do Zaire não reconhecemos Lucas Ngonda e estamos contra o acórdão do Tribunal Constitucional que impõe o Lucas Ngonda. Ngola Kabangu é o preferido pelos militantes da FNLA”, disse o então secretário provincial, Manuel Belo Baptista, justificando que o que consideram “putativo” presidente foi imposto pelo Tribunal Constitucional, em obediência a uma orientação do MPLA que pretende acabar com este partido histórico.

“NUNCA VIMOS ESTE MERCENÁRIO AQUI”

Por seu turno, o secretário administrativo da Associação dos Antigos Combatentes, Manuel Tambo, foi lapidar ao afirmar que “a injustiça é a fonte da violência” e assim se sentem os militantes da FNLA, injustiçados pelo Tribunal Constitucional, instituição com a qual disse não ter qualquer problema, mas sim com Ngonda a quem rotula de “mercenário”.

“No dia que Lucas Ngonda chegar aqui no Zaire, nós vamos reagir”, disse este antigo combatente que adiantou não temer pela intervenção das forças da ordem, recordando mesmo o episódio recente quando o agora presidente enviou à província uma delegação em missão de serviço.

Questionado, perante a situação actual, sobre o seu futuro, enquanto militantes precursores da luta de libertação nacional, Tango disse que aguardam por orientações de Ngola Kabangu que, no seu entender, não deverá fugir dos princípios que sempre defendeu a FNLA.

Manifestou-se céptico quanto à possibilidade de vir a ser emitida uma orientação do voto num outro partido político na impossibilidade de depositarem na urna os votos para o partido do coração, mas em cuja direcção não se revêem.

Indagado se votaria num outro partido, peremptório afirmou “jamais. E não acredito que Kabangu oriente o voto noutro partido, porque os verdadeiros militantes da FNLA vão morrer com as três cores da UPA-FNLA em cima do nosso património histórico”, afirmou o militante. Categórico deixou claro que com o actual estado das coisas, “nós não receamos perder a FNLA, mas o MPLA é que quer acabar com a FNLA”. Contra Lucas Ngonda foram mesmo proferidas acusações mais graves vindas do então secretário provincial, Manuel Belo Baptista, para quem “ele perseguia os nacionalistas, porque foi do exército colonial e da PIDE. Nós sabemos destas informações”.

Como ele aparece na direcção do partido, o político disse que beneficiou de um gesto benevolente de Holden Roberto que o nomeou secretário da FNLA na província do Uíge e, mais tarde, secretário para a Informação, mas que agora derivou em relação à defesa dos propósitos do partido.

As fontes de O PAÍS disseram que Ngonda não tem representante na província e o único que tinha desertou para a coligação Nova Democracia União Eleitoral.

Eugénio Mateus enviado a Mbanza Kongo

O PAÍS

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