Marcolino Moco, a propósito dos polémicos comunicados do BP do MPLA

Parece a história do menino invejado em que todos querem bater injustamente

Tenho dito que dentro do que estiver ao meu alcance, depois de tantas guerras que presenciei não gostaria que qualquer angolano apanhasse sequer mais um arranhão devido a disputas políticas.

Como o tenho referido, com toda a sinceridade, pensava que essas condições tivessem sido alcançadas em 2002, com a assinatura do protocolo de paz entre o Governo e a Unita, porque assim o indicavam todos os gestos dos chamados vencedores.

E nessa altura pensei que o Presidente José Eduardo dos Santos tinha alcançado o nível mais elevado da sua longa e difícil liderança - iniciada desde o inopinado desaparecimento físico de Neto - com o concurso de todas as forças nacionais que pugnavam por uma paz definitiva e sustentável. O problema que é que, como se costuma dizer, piscou-se para um lado e caminhou-se para o outro lado.

Quanto à opinião que me pedem, neste prestigiado meio de comunicação - para o qual em momentos cruciais procurei sempre canalizar algumas contribuições informais, especialmente, sobre o devir do país - no que concerne às últimas preocupações espelhadas em declarações do partido no poder, tenho a dizer o que se segue:

1- O mais provável é que afirmações como «estratégia seguida e suportada por diferentes instituições estrangeiras, perfeitamente identificadas, e organizações e indivíduos, incluindo cidadãos nacionais, recrutados para servirem de pontas-de-lança, visando manchar tudo quanto o poder executivo faça» só podem ser entendidas como exercício de um tipo de política que pessoalmente não aprovo, por me saberem à tentativa de invenção de bodes expiatórios.

2-Porém, se efectivamente, algum substrato plausível houvesse, no que se me afigura, postas assim as coisas, como meras insinuações de natureza política, eu diria que esta é mais uma ocasião demonstrativa da viabilidade de nossas reiteradas sugestões no sentido de que - arrastados por condicionalismos que nos ultrapassavam como foi o caso da Guerra Fria - devíamos ter procedido a um processo de reconciliação mais sério e profundo, em vez de pensarmos que, num quadro de meras lutas politico-partidárias, surgiria uma smithiana «invisible hand» que nos conduziria comodamente para a «terra prometida».

3-Não é preciso gastar tinta nenhuma, para deixar-se claro que num Estado que continua a proclamar-se democrático e de direito, não é, e de modo algum, assim que se rebatem determinadas acusações - não especificadas nas aludidas declarações - contra dignitários do poder político: apresentar-se como um menino invejado em que todos querem bater injustamente.

4-E, para mim, para além da faceta referida no número anterior, que qualquer observador, minimamente atento, vai descobrir que se refere ao facto de se revelarem inconsistentes os supostos esforços de moralização da administração pública, o mais grave é estarmos mais uma vez na iminência de se voltar à linguagem, em acusações e contra acusações, do sobre quem foi o responsável pela destruição do país: se foram os antidemocráticos do partido único que tomaram o poder unilateralmente em 1975 ou se foram os antigos «fantoches» de qualquer coisa. Num processo de paz e reconciliação nacional que, felizmente, ainda se apresenta bastante consistente, seja de que lado for, os responsáveis por este tipo de linguagem deveriam preferir ficar calados, porque isto não faz sentido nenhum, hoje. Se se pensa que em política tudo faz sentido, é este sentido de política que vem fazendo atrasar a nossa África.

5-Por outro lado, se há efectivamente gente que acredita que pela violência vai rectificar o que vai mal neste país, o que pelo menos não ouvi de pessoas sérias, é só olhar um pouco para atrás na História de Angola, para se ver que a violência só favorece os bons nadadores de águas turvas.

6- Não estou a pregar o conformismo com tantas coisas injustas que estão a acontecer no país. O que penso é que há muitos meios pacíficos e lícitos a que recorrer. Os cidadãos honestos, membros ou não dos partidos políticos, incluindo membros do MPLA - que não é possível que estejam todos de acordo com tudo que se nos tem dado a observar - têm de olhar para as partes pertinentes da Constituição de Angola e contribuir para a defesa dos direitos do cidadão. Os juízes devem recusar-se a proferir decisões politicamente impostas, por seja quem for. Que os jornalistas se recusem a ver censurados os seus trabalhos, ao arrepio das leis democráticas. Evitar que a grande Igreja Católica, que ao lado de outras igrejas, tanto lutou pelo calar das armas, agora se cale perante o montar de tijolos de futuros e imprevistos conflitos. Pensar que presos são os outros, deixados ao léu de casas partidas são os outros, que se cometam injustiças contra os outros enquanto nós preparamos as eleições, pode ser um grande equívoco que amanhã com certeza se virará contra nós. Como disse há dias, isto já está a ser uma realidade para algumas pessoas que, para além do tempo, foram fechando os olhos a essa realidade. «Injustiça chama injustiça».

7-Agora parece claro que o que faltou, entre vários assuntos, foi a coragem em abordar uma questão que devia ser colocada à mesa, na altura do regresso do país à paz e, especialmente, antes das eleições, como aliás eu havia sugerido: como criar mecanismo de distribuição justa da riqueza nacional, num país que ia entrar para a fase da formação de uma burguesia nacional e da acumulação de capital, em tempos em que a verdadeira riqueza é o conhecimento?

8-Penso mesmo que a própria liderança do país, que tanto me tem espantado pela negativa nos últimos tempos (não sobre as boas coisas que têm sido feitas que sempre reconheci) pode rever as questões, resolvendo as coisas numa plataforma nacional e não politizada e partidarizada, agarrando o touro pelos chifres. Acredito que a sociedade angolana, cansada de «tanta luta e tanto luto» (M. Rui) aprovaria quaisquer saídas razoáveis.